Entrevista para a Revista Visão sobre “Revolução na Educação”

A entrevista abaixo foi dada, por escrito, para a Revista Visão (jornalista Luíza Dalmazo) em 12 de Novembro de 2012. Encontrei o texto hoje, revisei-o e o publico aqui. O que saiu em um artigo da revista foi quase nada em comparação com tudo o que eu disse.)

PERGUNTAS E RESPOSTAS

1. Está acontecendo uma revolução educacional? Se está, onde ela está ocorrendo? Alguns dizem que a revolução em curso seria a terceira grande revolução na educação: faz sentido?

Espera-se que aconteça uma revolução educacional — mas ela não está acontecendo ainda. Ela seria provocada (não causada — o processo não é determinista) por uma tecnologia: o computador digital e todas as tecnologias de informação e comunicação que convergiram para ele.

Se e quando acontecer, será a terceira grande revolução (se desconsiderarmos a primeira, que tornou a educação possível). Se incluirmos a primeira, que teve que ver com a invenção da Linguagem Oral, ou seja, da Fala, será a quarta.

Vejamos quais foram as revoluções anteriores para em seguida falar um pouco da revolução educacional que se espera aconteça em um futuro próximo.

A. A Fala

A educação, como a conhecemos, não é possível sem a linguagem. Logo, a revolução número zero, que tornou a educação possível, foi a invenção da linguagem — originalmente, da linguagem oral, vale dizer, da fala. Ninguém sabe quando isso se deu. Alguns imaginam que foi cerca de 100 milhões de anos atrás (mas, para mim, esses números enormes querem dizer que nós não sabemos).

Quando a educação depende exclusivamente da fala, e não há tecnologia para amplificar a fala ou transmiti-la a distância, ela tem de ser face-a-face, ou presencial, como se diz hoje.

Quando falo em invenção da linguagem, tenho em mente a linguagem que faz uso de conceitos e, portanto, que usa termos gerais — não uma linguagem gráfica ou pictórica que, para cada entidade a que deseja fazer referência, tem um elemento que a representa.

B. A Escrita

A segunda revolução (se contarmos a Fala como a primeira) foi causada pela invenção da escrita alfabética (não pictórica, cuneiforme), no milênio anterior à era cristã. Também não é claro quando a escrita alfabética foi inventada. Aparentemente os fenícios inventaram um alfabeto parecido conosco, que os gregos aperfeiçoaram por volta do século 8 aC. Com a escrita alfabética surgiu a carta (vide as cartas do Novo Testamento),  surgiu o livro, originalmente manuscrito, etc.

A escrita revolucionou o mundo, e, revolucionando o mundo, revolucionou a educação.

A carta, e especialmente o livro, ainda que manuscrito, tornaram possível a educação a distância — por carta ou por livros — e a auto-educação — a educação em que eu, sozinho, leio, reflito, tiro minhas conclusões.

C. O Livro Impresso 

O livro manuscrito era de produção complicada. Poucos sabiam ler e escrever, porque o processo de produzir um livro era demorado e caro. Por isso, até o final da Idade Média, até reis e demais nobres eram, em regra, analfabetos.

A terceira revolução foi causada pela invenção da prensa móvel por Johannes Gutenberg, por volta de 1455. Com isso, tornou-se possível produzir livros absolutamente idênticos em grande quantidade e com um custo relativamente barato. A invenção de Gutenberg também tornou possível a popularização do cartaz, do panfleto, do livreto, do jornal…

Isso revolucionou o mundo, e, revolucionando o mundo, revolucionou a educação.

Atribui-se à invenção da prensa móvel uma parcela significativa de importância na Reforma Protestante, no surgimento dos Estados Modernos, no surgimento das Línguas Vernáculas e das Literaturas Modernas, no surgimento da Ciência Empírica, etc.

A Reforma Protestante, por exemplo, incentivou os fieis a aprenderem a ler para poderem ler a Bíblia por si próprios e, assim, não serem enganados pelos padres católicos… Ao lado das igrejas protestantes surgiram escolas mantidas por elas, que são as primeiras escolas modernas de que temos conhecimento. O livro fácil e barato incentivou a auto-educação e a educação a distância (por correspondência, com base em um livro texto comum).

D. A Tecnologia Digital

Em 1946 foi mostrado ao mundo o primeiro computador digital e nada mais foi o mesmo a partir de então — embora algumas coisas custem mais a mudar do que outras. A coisa mais fantástica é que todas as tecnologias de comunicação e informação acabaram por se fundir no computador, ou para a tecnologia digital: as câmeras (e as fotografias estáticas e dinâmicas, neste caso o vídeo), o telefone (e a fala interpessoal a distância), o rádio (e a transmissão do som, inclusive da voz humana, a distância, de um local para vários, broadcasting), a televisão, o cinema, cinema, o jornal, a revista, e, naturalmente, o livro (e-book). A comunicação instantânea se tornou multimídia: texto, voz,  vídeo, som de fundo, efeitos especiais, etc.

Nossa vida está sendo revolucionada por essa evolução tecnológica. A educação também fatalmente o será. Na verdade, fora da escola já foi afetada. As pessoas hoje aprendem conversando por chat (messenger) ou e-mail, pesquisando na Internet (Web), trabalhando em colaboração, facilmente compartilhando ou divulgando amplamente suas produções, etc. Só a escola resiste. Por mais que se faça alarde, pouquíssimas experiências existem de escolas realmente inovadoras.

É isso. Ficou grande, mas é essa a resposta à sua primeira pergunta.

2. Quais são as implicações dessa revolução? Já existem resultados que provam que os novos modelos são mais eficientes? Há casos significativos no Brasil (soube da Lumiar e da Amorim Lima)?

Note-se bem. A revolução até aqui é nas formas de comunicação e acesso à informação. Não é na educação. Mas as formas de comunicação e acesso à informação delimitam aquilo que é possível fazer na educação e, portanto, tornam possível, viável e, por conseguinte, provável, uma revolução na educação.

Assim, a tecnologia em si não causa nenhuma revolução na educação — mas ela torna essa revolução possível, viável e provável. Quem tem de decidir se a educação escolar vai ser revolucionada são os que a controlam as escolas: proprietários, mantenedores, governos, etc. A educação não-escolar (a educação dita não-formal) já está em plena revolução há algum tempo.

Quanto à escola, há três formas de elas reagirem à tecnologia:

  • Usando-a para fazer aquilo que já fazem, apenas de uma forma um pouco mais eficiente (atitude conservadora);
  • Usando-a para estender e ampliar aquilo que já fazem, dando maior alcance e amplitude ao seu trabalho (atitude reformadora);
  • Usando-a para fazer o que antes não conseguiam fazer ou para fazer o que já faziam de uma maneira totalmente nova (atitude transformadora).

Só neste terceiro caso começa a acontecer uma revolução na escola ou, como eu prefiro, tem lugar a reinvenção da escola.

Se reinventarmos a escola, como eu espero que façamos, não haverá ganhos apenas de eficiência, como sugere a pergunta. Haverá uma nova educação, uma nova forma de aprender, um novo currículo, uma nova metodologia, uma nova maneira de encarar a avaliação.

Compara-se o telefone de hoje e o telefone de 20 anos atrás. O telefone de hoje permite ainda que a gente fale com outras pessoas a distância. Mas ele também é um computador que acessa a Internet, que recebe e envia e-mails e mensagens instantâneas (e até mensagens de vídeo), ele é console de jogo, ele é relógio, despertador, máquina fotográfica, album de fotografia, reprodutor de músicas e de vídeos agenda, livro de endereços, etc.

O que se espera é que a nova escola, a escola reinventada, esteja para a escola de hoje como o telefone celular digital de hoje está para aquele telefonão preto, fixo, que só nos deixava fazer e receber chamadas a partir de um mesmo lugar.

A Escola da Ponte, em Portugal, a Lumiar e a Amorim Lima, aqui em São Paulo, e outras escolas esparramadas pelo Brasil e pelo mundo, são pequenos ensaios do que é possível — embora, por ser a inovação real tão rara na educação escolar, elas alcancem grande visibilidade e projeção. Mas nenhuma dessas escolas faz real uso do pleno potencial disponibilizado pelas tecnologias digitais, em especial, pelas redes digitais.

Pessoalmente, tendo a crer que a educação do futuro prescindirá da escola, mesmo de uma escola reinventada, e acontecerá em cima da desescolarização da sociedade, como propugnou Ivan Illich em seu livro A Educação sem Escolas (Deschooling Society).

3. O conceito de personalizar a educação não é novo (até seria legal se eu descobrisse que teórico o criou), mas a tecnologia está permitindo que ele de fato seja implementado. Softwares como o Learning Management Systems permitem não só a monitoria do desempenho dos alunos quanto de professores. Quais são as implicações e benefícios disso? –

Sócrates (470-400 AC, por aí) é, na minha opinião, o pai da educação personalizada. Ele ensinava face-a-face, um-a-um, não tinha um currículo (ele discutia com o interlocutor o que este queria aprender). Ele tinha um método, chamado de maiêutica, que consistia em procurar fazer com que cada um descobrisse, por si próprio, as respostas às suas perguntas.

Logo, a ideia de uma educação personalizada, centrada nos interesses e baseada nos talentos de cada um não é nova — longe disso. A história da educação começa, de certa forma, com ela.

O problema com a educação que Sócrates praticava é que muito pouca gente podia ser alcançada por ela — a educação socrática não tinha escala.

Hoje a tecnologia permite que tenhamos uma educação personalizada em escala, isto é, que atinja todos os que queiram se educar.

Mas a resposta não está em Learning Management Systems (LMS). Está nas redes sociais. Não se trata de monitorar desempenho nem de alunos nem de professores. Trata-se, isto sim, de permitir que cada um aprenda aquilo que precisa ou deseja saber, e saber fazer, para definir e transformar em realidade o seu projeto de vida.

Segundo nosso educador maior, Paulo Freire, ninguém educa ninguém, mas tampouco nos educamos sozinhos. Educamo-nos uns aos outros em interação, em diálogo, em discussão crítica, naquilo que Paulo Freire chamava de comunhão: a comunidade criada com a finalidade de aprender colaborativamente.

É verdade que em escolas, ou instituições formais de educação, os LMS podem ajudar. Mas podem atrapalhar também. Tudo depende da visão de educação de quem os faz e os usa.

4. Sistemas públicos de ensino já adotaram essas ferramentas (ouvi falar do governo de Ontário)? Que melhorias apresentaram?

Pouquíssimos sistemas públicos de ensino, aqui ou no exterior, usam as novas tecnologias de comunicação e informação, e em especial as redes sociais, para promover a educação no sentido que Paulo Freire imprimiu ao conceito.

As mudanças ocorridas em Ontário, sob a coordenação de meu amigo Michael Fullan, que era do Ontario Institute of Education antes de se aposentar e se tornar consultor, são importantes, mas são feitas dentro do paradigma vigente, que preconiza que a educação precisa de currículos muito bem elaborados, métodos de ensino e instrução sofisticados, professores especializados bem preparados, avaliação na forma de testes, provas e exames — e alunos dispostos a aprender não o que precisam ou desejam aprender para realizar seu projeto de vida, mas aquilo que os burocratas em secretarias e ministérios da educação decidem que devem aprender.

Uma hora os jovens vão se dar conta de que a educação escolar é uma sentença de 12 a  16 anos que os interna e institucionaliza, a revolução educacional pode começar a acontecer com rapidez e eficácia.

5) Enquanto países como o Canadá estão investindo em tais sistemas, o Brasil discute política de cotas. Não é um sinal de descompasso as ideias mais modernas no mundo?

O Brasil, infelizmente, apesar de toda a pretensão, é um país atrasado. A discussão das cotas entrou em moda nos Estados Unidos cinquenta anos atrás — e lá já saiu de moda. O primeiro presidente americano negro não se beneficiou de cotas — que se registre isso.

São Paulo, 12 de Novembro de 2012, revisto em 14 de Março de 2018

Redes Sociais, Um Computador por Aluno e a Reinvenção da Escola

Artigo número 7, escrito por Eduardo Chaves em 21/4/2011, e publicado originalmente no site das Editoras Ática e Scipione em 2/5/2011.

Volto, neste sétimo artigo da série, ao tema do primeiro: as Redes Sociais que se criaram a partir da chamada Web 2.0. E acrescento um tema novo: Um Computador por Aluno.

Encontrei uma passagem interessante sobre a Web 2.0 em um estimulante livro de Marc Prensky: Teaching Digital Natives: Partnering for Real Learning. Ele é a pessoa que criou e popularizou o uso das expressões “Nativo Digital” e “Imigrante Digital”. Só isso já lhe valeria um prêmio…

Mas eis o que Prensky diz sobre a Web 2.0:

“É difícil, hoje, falar em tecnologia e escola sem mencionar os grandes benefícios da Web 2.0 para a aprendizagem. Caso você não saiba, o que as pessoas querem dizer por Web 2.0 é que, além de ser um meio (medium) em que se leem e se veem coisas (que, faz muito tempo, ela já é), a Web também é um meio (medium) em que qualquer um pode publicar seus textos, suas fotos, seus vídeos, etc.

Também isso não é muito novo. O inventor da Web, Tim Berners-Lee, já disse, muitos anos atrás, que ‘aquilo que as pessoas colocam na Web é muito mais importante do que aquilo que elas retiram de lá‘.

A Web 2.0 só assusta aqueles que enxergam a Web apenas como uma biblioteca, um lugar de ler e ver coisas. Quem ainda adota esse modelo da Web não tem sido capaz de perceber a evolução que vem ocorrendo nela.

O que acontece hoje é que ferramentas extremamente amigáveis permitem que qualquer um – inclusive os nossos alunos – publique seus textos, suas fotos, seus videos na Internet, para o mundo inteiro ler e ver. Assim, qualquer aluno pode ser um editor (publisher) de seu trabalho.

A publicação do trabalho dos alunos é importante para o aprendizado, especialmente quando acompanhada de feedback dos que o leem ou veem o que foi publicado.

. . .

Os alunos devem ser encorajados a usar as ferramentas da Web 2.0, como blogs, wikis, YouTube, as Redes Sociais, etc., o mais possível. E todos devemos ficar à espreita, na espera da Web 3.0, a ‘web semântica’, em que a gente vai poder pesquisar qualquer coisa em qualquer trabalho jamais criado (texto, imagem, video, etc.) e daí facilmente interligar (link) os resultados num novo trabalho.

A Web 3.0 está pertinho… Basta virar a esquina”.

o O o

Há escolas que, ainda hoje, proíbem seus alunos de entrar na escola com telefones celulares – mesmo que não sejam smartphones com acesso à Internet. E há professores, e muitas outras pessoas que se julgam avançadas, que acham que essa proibição está certa.

Li, há algum tempo, um livrinho sobre Um Computador por Aluno (1:1 Computing), publicado por algumas das maiores empresas de tecnologia do nosso tempo. Nesse livrinho, ao mesmo tempo que se defendia a necessidade de que, nas escolas, cada aluno tivesse seu computador, e até mesmo pudesse levá-lo para casa ao fim da jornada escolar, tentava-se arrancar palmas de professores resistentes a essa medida dizendo algo mais ou menos assim (parafraseio de memória):

“O fato de cada aluno ter em mãos seu próprio computador não significa, professor, que você vai perder controle de sua sala de aula. A escola, e se ela não o fizer, você, no âmbito da sua sala de aula, deve estabelecer normas para uso dos computadores durante a aula. Você pode estipular, por exemplo, que enquanto você estiver falando, todos os notebooks ficarão obrigatoriamente com as tampas baixadas a um ângulo de 45 graus”.

Se empresas que se julgam avant garde na educação sugerem isso, o que não acontecerá nas salas de aula dos locais mais recônditos do país?

Mas esse cenário vai mudar.

Você já imaginou uma empresa que proíba seus funcionários de usar computadores conectados à Internet dentro da empresa porque os funcionários podem desperdiçar seu tempo em Redes Sociais, lendo jornais, enviando mensagens para seus amigos, etc., ou porque o uso do computador na frente dos chefes é um gesto de desrespeito à sua autoridade?

Não faz sentido, não é mesmo? Nem na empresa, nem na escola.

Mas você já pensou, professor, o que você vai fazer quando, em sua escola, todos os seus alunos tiverem acesso a um notebook conectado à Internet 100% do tempo, contarem com autorização da administração da escola para utilizá-los até mesmo dentro da sua sala de aula, criarem seus blogs, seus wikis, seus sites de desenhos, pinturas e fotos, seus sites de pequenos vídeos stop and motion, e estiverem ansiosos para abastecê-los com crônicas, contos, poemas, desenhos, pinturas, fotos e histórias em vídeo?

Será que você é daqueles que, ao contemplar um cenário desses, dá graças a Deus porque imagina que, quando isso acontecer, você já estará gozando sua merecida aposentadoria?

Ou será que você fica aliviado porque acredita que a administração de sua escola nunca vai permitir uma coisa dessas?

O futuro espera que você seja daqueles que contemplam esse quadro, refletem sobre ele, e dizem, com esperança: Imagine the possibilities!?

o O o

A  Web 1.0 ampliou, facilitou  e assim democratizou o consumo da informação. Nunca antes na história da humanidade se viu tanta informação sendo consumida como nos últimos anos do século XX e nos primeiros anos do século XXI.

A Web 2.0 está possibilitando, entretanto, que milhões de indivíduos se tornem produtores de informação – algo anteriormente limitado a uma minoria extremamente restrita. Hoje, o céu é o limite. Em princípio, nada impede que todo mundo se torne um produtor de informação – inclusive cada um de nossos alunos. E provavelmente os próximos anos serão anos dos quais venhamos a dizer que nunca na história da humanidade tanta gente produziu tanta informação de forma tão democrática…

Como disse Marc Prensky, a publicação dos trabalhos dos alunos na Internet é importante para o seu aprendizado, especialmente quando acompanhada de feedback dos que o leem ou veem o que foi publicado. Paulo Freire ressaltou que aprendemos uns com os outros, num plano horizontal, bilateral ou multilateral, em comunhão, não em relações verticais, unilaterais, como a que prevalece entre professor e aluno na sala de aula. Na sala de aula, o professor fala, em geral sobre um assunto que o aluno não escolheu e em que não está interessado – o aluno é obrigado a ficar quieto e prestar atenção. Poucos ambientes são mais inadequados à aprendizagem do que esse.

A Web 2.0, com sua interatividade, com sua liberalidade, com a promiscuidade entre experts e iniciantes que ela permite nas Redes Sociais, se tornou, dessa forma, um gigantesco “supermegahiper” ambiente de aprendizagem extremamente importante para o desenvolvimento dos alunos – muito mais importante, ouso dizer, do que as salas de aula de nossas escolas.

o O o

Meu querido amigo Les Foltos, criador do programa Peer Coaching (Aprender em Parceria, no Brasil), hoje distribuído no mundo inteiro pela Microsoft, uma vez contou à Mary Grace Andrioli (minha mulher, Paloma, e eu fomos testemunhas), o seguinte causo, acontecido nos primórdios da era dos blogs, quando a expressão Web 2.0 ainda nem existia. Um professor de Redação e Composição nas cercanias de Seattle resolveu estimular seus alunos de 11-12 anos a criar seus blogs e neles escrever sobre assuntos de seu interesse. O negócio virou uma febre, e os blogs dos alunos começaram a receber visitantes externos, que deixavam palavras de estímulo, faziam comentários e sugestões, ou, por vezes, criticavam um ou outro aspecto do que havia sido publicado.

O professor deixou claro para os alunos, porém, que esse trabalho com os blogs era, por assim dizer, e aproveitando um termo da teologia, supererrogatório: ficava além do que era necessário como trabalho obrigatório da classe e não deveria ser visto como um substitutivo para as exigências regulares. Assim sendo, surpreendeu-se um dia quando uma menininha, que era uma das melhores alunas da classe e sempre fora pontual na entrega dos deveres, lhe disse que não havia feito a tarefa de casa prescrita no dia anterior e que agora lhe era cobrada. O professor logo imaginou que a menina tivesse ficado doente, algo assim, para deixar de fazer seu dever. Mas surpreendeu-se ainda muito mais com a resposta da menina: “Professor, eu estava escrevendo uma coisa tão bacana no meu blog, que pensei assim. Se eu parar de escrever isso para fazer a tarefa, dezenas, quem sabe centenas, de pessoas na Internet não vão poder ler um artigo novo no meu blog. E elas normalmente deixam comentários e elogios. Se eu não fizer a minha tarefa, que só o professor lê, raramente comenta e quase nunca elogia, apenas ele ficará sem algo meu para ler e comentar. Diante disso, achei preferível não fazer a tarefa de casa.”

Dá pra entender? Bem, claro que dá para entender. Quem sabe no lugar dela a gente não faria o mesmo, não é verdade? Quem sabe a gente já não fez algo equivalente, em condições semelhantes, quando optou por fazer algo que dava mais satisfação e não o que era esperado e nos seria cobrado…

Mas o que faz um professor numa situação inusitada dessas? A menina não inventou uma desculpa qualquer que enganasse o seu professor. Podia muito bem tê-lo feito – tantos o fazem! Ela disse, na cara do professor, e com todas as palavras, que havia encontrado algo mais importante para fazer do que realizar para ele pequenos deveres de casa.

o O o

Meu amigo Glen Bull, diretor do Centro de Tecnologia e Formação do Professor da Faculdade de Educação da Universidade de Virgínia, em Charlottesville, VA, uma vez me contou um caso interessante, sobre  John Grisham, o famoso escritor de bestsellers, que mora ao lado de Charlottesville. Vendo a história pelo preço que paguei por ela… John Grisham, que é um filantropo batista muito interessado na educação, e que está rico com as vendas de seus livros e dos direitos de filmagem sobre eles, resolveu fazer uma proposta para a High School que fica perto de seu ranch. Daria um notebook para cada aluno e equiparia a escola com redes sem fio da última geração, bem como com acesso à Internet da melhor qualidade, sob uma condição: a escola não deveria impor restrições ao uso dos notebooks pelos alunos, fora ou dentro da sala  de aula. Nada de tampa baixada num ângulo de 45 graus aqui.

A escola concordou. Aqui entre nós: que administrador de escola não concordaria?

Você já se imaginou, professor, nesse tipo de escola? Se você diz alguma coisa interessante, todos os alunos vão checar o que você disse na Internet. Se algo não bate, você provavelmente vai ficar sabendo através de um nerdzinho ou de alguém que é amigo, no Facebook, de um grande especialista na área. Se você diz coisas que não são interessantes, você perde os alunos, que vão fazer outra coisa, não prestando mais atenção ao que você está dizendo.

E daí? Fazer o quê?

o O o

Um contexto escolar assim, em que cada aluno tem seu computador e tem acesso constante e de qualidade à Internet, em especial à Web 2.0, dentro e fora da sala de aula, vai nos obrigar a repensar a educação escolar: será preciso reinventar a escola, talvez abandonar a idéia de aula e de sala de aula, recriar, quem sabe a partir do zero, o nosso ofício de mestre. A aprendizagem será 24/7/52: ela acontecerá vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana, 52 semanas por ano – e ela será eminentemente horizontal, multilateral.

O quanto antes começarmos a pensar nisso, melhor.

São Paulo, 21 de Abril de 2011

Transcrito aqui em Salto, 3 de Janeiro de 2016.

Tecnologia, Redes Sociais e Educação

Artigo número 1, escrito por Eduardo Chaves em 10/3/2011, e publicado originalmente no site das Editoras Ática e Scipione em 21/03/2011.

Tecnologia, na minha forma de ver, é tudo aquilo que o ser humano inventa para tornar sua vida mais fácil ou mais agradável.

Ela inclui coisas tangíveis (hardware), como equipamentos, instrumentos e dispositivos diversos, e coisas intangíveis (software), como linguagens, sistemas numéricos, sistemas de notação (musical, por exemplo), métodos, procedimentos, princípios, regras de organização, etc.

Assim, a linguagem verbal, que inclui a fala e a escrita, é tecnologia. Comunidade, embora possa parecer estranho a alguns, também é tecnologia.

Olhando o desenvolvimento da espécie, houve época em que os seres humanos se comunicavam por gestos, expressões faciais e grunhidos (como outros animais), não pela linguagem verbal, que foi uma invenção que surgiu em tempo oportuno. Primeiro o ser humano inventou a linguagem oral – a fala; depois de muito tempo, a linguagem escrita – o texto. Até hoje, porém, há sociedades que ainda vivem numa cultura exclusivamente oral, desconhecendo a escrita.

Olhando a questão do ponto de vista do desenvolvimento do indivíduo, nascemos sem conseguir entender a fala e sem saber falar, ler e escrever. Aprendemos primeiro a entender a fala, depois a falar e, depois de algum tempo, a ler e a escrever. Alguns indivíduos, entretanto, passam a vida inteira sem aprender a ler e a escrever.

Embora, hoje, possa parecer natural viver em ambientes comunitários (cidades, bairros, condomínios), a história nos mostra que houve época em que o ser humano vivia como nômade, vagando de lugar em lugar em pequenos bandos familiares, e vivendo da caça e da pesca ou, então, apanhando frutos de árvores que nasceram naturalmente (sem ser deliberadamente plantadas), onde as encontrassem, não em comunidades semelhantes às que temos hoje, sedentárias, com divisão de trabalho, mercado para a troca de bens e serviços produzidos por cada um, forma própria de organização e governo, etc. Estas só foram inventadas a partir de determinado momento na evolução da espécie humana.

No nível macro, as comunidades de tipo mais genérico, criadas para atender aos vários interesses comuns ou afins de pessoas que não são ligadas por laços de sangue, custaram para aparecer.

No nível micro, levou mais tempo ainda para que os seres humanos inventassem comunidades de finalidade específica – como, por exemplo, as de aprendizagem (tanto as comunidades de artesãos e aprendizes como as chamadas em Inglês de “communities of scholars”).

Mas o que tudo isso tem que ver com a educação? Tem bastante.

Por muito tempo, a fala e a comunidade (em especial a comunidade familiar estendida) foram as principais tecnologias usadas na educação. Antes da invenção da escrita alfabética e da consequente invenção do texto, educava-se em família, com as pessoas vivendo juntas, conversando, explicando, mostrando umas às outras como fazer as coisas que precisavam ser feitas (necessidades) ou as coisas que pareciam interessantes (desejos).

Fora do âmbito familiar, Sócrates, que considero o maior educador que tivemos, usava apenas a fala como tecnologia no seu processo pedagógico focado no diálogo. Dispensava até mesmo a comunidade. Seus alunos vinham a ele individualmente e ele lidava com eles de forma personalizada, um a um. Apenas conversava com eles.

Pelo menos três características do método socrático são importantes aqui. Primeiro, Sócrates educava na praça – no lugar em que as pessoas viviam, não em um local separado, segregado da vida do dia a dia. Segundo, a conversa era centrada nos interesses dos seus interlocutores: não era pautada pelos interesses do mestre. Terceiro, os alunos tinham participação ativa no processo. Podemos dizer (usando conceitos atuais) que, com Sócrates, temos uma educação inserida na vida real, personalizada, centrada nos interesses dos alunos e focada na sua aprendizagem ativa, interativa e colaborativa – e, por isso, significativa.

É curioso (e até certo ponto triste) que não tenha ocorrido a Sócrates criar uma comunidade de alunos interessados nas mesmas coisas e questões para que eles se beneficiassem não só da interação com ele, o mestre-parteira, que os ajudava a dar à luz suas próprias ideias, mas também do diálogo uns com os outros – ou seja, da aprendizagem colaborativa (no plano horizontal ou lateral). Tanto quanto sabemos, Sócrates nunca criou uma comunidade de aprendizagem, como uma escola…

É também curioso que Sócrates tenha optado por não usar, e mesmo rejeitar, os recém-aparecidos textos (livros manuscritos) na educação de seus discípulos. Na verdade, criticou o uso do texto como tecnologia educacional: o livro não traz nenhum benefício e prejudica a aprendizagem, enfraquecendo a memória e substituindo o diálogo…

É verdade que, logo depois de Sócrates, e sob a liderança de discípulos seus, apareceram liceus e academias, ou seja, escolas mais ou menos parecidas com as que hoje temos. Isso indica que, a partir dessa data, comunidades específicas de aprendizagem, compostas de pessoas com interesses de aprendizagem comuns ou afins, apareceram no cenário educacional. Essas comunidades de aprendizagem fizeram uso bastante eficaz da tecnologia da fala.

No período pós-socrático, e por muito tempo depois, a educação fez uso quase que exclusivamente das tecnologias da fala e da comunidade. No entanto, porque houve necessidade de racionalizar ou otimizar o processo, um mestre passou a se ocupar de vários alunos – e, com isso, perderam-se algumas características importantes da pedagogia socrática: a personalização, o foco no aluno e nos seus interesses, o diálogo… E a educação saiu da praça e passou a ter lugar dentro da escola, perdendo contato com a vida real.

Dessa forma, gradativamente, processos cognitivos  e processos vitais foram se distanciando, a aprendizagem foi se separando da vida, a educação foi se despersonalizando, o foco foi se transferindo do aluno e seus interesses para o professor, seus interesses e especialidades, e a aula, unidirecional, não dialógica ou “discutitiva”, passou a ser a metodologia favorita, em lugar do questionamento dialógico (ou do diálogo questionador) de Sócrates. E, assim, os alunos deixaram de dar à luz as próprias ideias para adotar as ideias dos mestres…

De Sócrates até a invenção da prensa de tipo móvel, no século XV da era cristã, o texto foi muito pouco usado na educação. Livros manuscritos existiam, mas eram poucos e, por isso, tão preciosos que ficavam trancados (até mesmo acorrentados) em bem guardadas bibliotecas (vide O Nome da Rosa, de Umberto Eco). Quase não eram usados na educação.

Com o aparecimento do livro impresso, a partir de 1455, por aí, isso mudou, e o uso do texto se disseminou rapidamente, o livro passando, gradualmente, a competir com a fala pela condição de principal tecnologia utilizada na educação. Mas a comunidade continuou a ocupar um papel totalmente secundário. Os dois, o livro e a fala, encontraram uma forma pacífica de convivência.

Com o livro impresso surgiu (a partir da Reforma Protestante) a escola moderna, organizada em torno de um currículo definido por uma autoridade central, com os professores ocupando o papel de protagonistas no palco principal. A vida escolar dos alunos passou a ser totalmente regimentada, com pouca ou nenhuma liberdade. Seu ofício passou a se resumir a ficar quietos, prestar atenção ao que dizia o professor, anotar os pontos relevantes e fazer, no tempo livre, até mesmo em casa, as leituras exigidas ou recomendadas pelo professor.

Mais ou menos três séculos depois surgiu a escola pública, de massa, controlada pelo Estado, que adotou o mesmo modelo.

A escola moderna é, certamente, uma comunidade de aprendizagem. No entanto, a comunidade existente na escola moderna é, em grande parte, criada por imposição, não pela união de interesses comuns e afins. Nela, o protagonismo estudantil, a personalização da educação e o método dialógico, que imperaram sob Sócrates, se perderam totalmente, e o modelo de educação que hoje temos se consolidou.

As Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC) digitais, centradas inicialmente no acesso à informação escrita, e, logo depois, na comunicação um-para-muitos (o Telecurso, o Ensino a Distância, o site na Web, etc.), se prestaram muito bem, num primeiro momento, a reforçar o paradigma educacional da escola moderna, centrado na transmissão de informações de um (o mestre) para muitos (os alunos). Elas foram usadas para dar suporte e sustentação para esse modelo tradicional, bem como para estendê-lo cuidadosamente.

O computador, o projetor multimídia, o telão, a lousa eletrônica e até mesmo a Internet (especialmente a Web) reforçaram o modelo, dando-lhe maior eficiência. A comunicação continuava a ser de um para muitos.

O Ensino à Distância permitiu que o alcance do modelo fosse ampliado, levando ao aparecimento de telecursos, tele-aulas, ensino virtual, etc. – atividades que, exceto pela distância, eram bastante semelhantes às aulas presenciais.

Mas, um dia, surgiram as redes sociais, das quais o Facebook é o exemplo mais completo.

Ainda não sabemos, com precisão, como as redes sociais vão afetar a educação. O estabelecimento escolar tem resistido a elas, e (de sua perspectiva) com boa razão, porque elas representam uma ameaça significativa ao paradigma educacional vigente.

Vejamos por quê.

  1. a) A rede social é uma ampla comunidade genérica que permite a criação de inúmeras comunidades específicas de pessoas com interesses comuns ou afins.
  2. b) As comunidades específicas são criadas pelos próprios usuários a partir de seus interesses e os demais usuários agregam-se a comunidades de terceiros também conforme os seus interesses.
  3. c) Na rede social, mesmo quando comunidades específicas são criadas para servir os objetivos de instituições, a comunicação rapidamente se torna muitos-para-muitos.
  4. d) A rede social já incorporou a tecnologia do texto, da imagem, do vídeo, do e-mail, da mensagem instantânea, e já começa a incorporar a tecnologia da fala.
  5. e) Na rede social o texto é usado não só para a comunicação interpessoal (substituindo a fala, enquanto esta não está amplamente disponível) como também para a publicação ou republicação de textos, fato que faz das redes sociais não só redes de pessoas, mas, também, verdadeiras mídias sociais.
  6. f) Os textos publicados na rede social em geral são curtos (nunca um livro, nem mesmo um ensaio), objetivos, relevantes e pertinentes ao foco de uma comunidade específica e geram imediata repercussão e discussão.
  7. g) Consequentemente, a rede social é um ambiente extremamente adequado para uma educação personalizada, ativa, interativa, colaborativa, e significativa, pautada pelos interesses dos participantes, em que, nas palavras de Paulo Freire, ninguém educa ninguém e ninguém se educa sozinho, mas todos se educam uns aos outros, em diálogo e comunhão.

É apenas questão de tempo para que o paradigma mude. O processo de sua subversão está em curso. Sócrates, o subversor por natureza, se visse o que está acontecendo, daria pulos de alegria.

São Paulo, 10 de Março de 2011

40 Comentários foram feitos no site das Editoras Ática e Scipione:

COMENTÁRIO 01

Sirlei Maria Oliveira disse:

Em 17/03/2011 às 16:30

Sou professora de Educação Infantil e Séries Iniciais. Adoro educar, pois educar é realizar a mais bela e complexa arte da inteligência, é crescer na vida, mesmo que derramemos lágrimas, ter esperança no futuro, mesmo que os jovens nos decepcionem no presente, é semear com sabedoria e colher com paciência, ser um garimpeiro que procura os tesouros do coração. Educar é buscar todos os meios possíveis de ensinar. Com o avanço tecnológico está cada vez mais fácil adquirir materiais que nos deem apoio e nos ajudem a projetar um trabalho que responda às expectativas dos nossos alunos. Amo a minha profissão e faço o melhor que posso para deixar o mundo um pouquinho melhor.

COMENTÁRIO 02

Eduardo Chaves disse:

Em 19/03/2011 às 21:59

Que bom, Sirlei. É bom ver alguém que gosta do que faz — e melhor ainda quando o que se faz é ajudar crianças pequenas a se iniciar nessa maravilhosa jornada do desenvolvimento humano, realizando, pela aprendizagem, seu pleno potencial. Você tem razão quando diz que a tecnologia nos ajuda a fazer melhor o nosso trabalho. Ela também ajuda os aprendentes a aprender mais e melhor — e a aprender coisas que antes não se aprendiam na escola.

Volte sempre a este blog e visite nossa página no FaceBook: http://www.facebook.com/aticascipione

Um abraço.

Eduardo Chaves

COMENTÁRIO 03

Eduardo Chaves disse:

Em 26/03/2011 às 08:39

Complementando, Sirlei…

Você diz:

“Educar é buscar todos os meios possíveis de ensinar.”

Pense comigo. Será que não seria melhor:

“Educar é buscar todos os meios possíveis de aprender e de ajudar os outros a aprender, em interação, diálogo e colaboração”?

Pense nisso.

E se você responder, mas é exatamente isso que eu acho que é ensinar, eu retorquiria: mas será que ensinar, para a maioria dos professores, é realmente buscar todos os meios possíveis de aprender e de ajudar os outros a aprender, em interação, diálogo e colaboração? Ou é simplesmente dar a matéria prevista na apostila do sistema de ensino, no livro didático, do plano de aula?

Um abraço.

Eduardo Chaves

COMENTÁRIO 04

Alismar Aparecida Si disse:

Em 22/03/2011 às 10:41

É incrível a capacidade de se desenvolver do ser humano, a “gente pega uma pedra bruta e consegue lapidar transformando-a no mais precioso diamante”. Existe coisa mais linda do ver isso acontecer? Por isso eu amo minha profissão. Sei o quanto é emocionante ver suas pequenas descoberta no dia a dia.

COMENTÁRIO 05

Eduardo Chaves disse:

Em 26/03/2011 às 07:50

Alismar,

Há algo em seu comentário que me incomoda um pouco. Mas é uma daquelas coisas que a gente sente que incomoda mas não sabe dizer direito por quê.

Você fala na “capacidade de se desenvolver do ser humano”. E você fala em “lapidar uma pedra bruta, transformando-a no mais precioso diamante”.

O primeiro conceito — ou será uma metáfora — parece pressupor que o ser humano é capaz de se desenvolver e que o desenvolvimento é algo assim de dentro para fora, como nas coisas vivas em geral.

No segundo conceito, a pedra bruta que vira diamante, não há esse desenvolvimento: o único jeito de transformar uma pedra bruta em diamante é pela ação externa, pela ação de terceiros, de fora para dentro, como se fosse.

Percebeu o que me incomoda? Dizer que o ser humano se desenvolve no mesmo parágrafo em que você diz que ele é pedra bruta que precisa ser lapidada, me parece beirar uma contradição…

Se você tivesse dito que o ser humano é uma lagarta que se transforma em uma linda borboleta, talvez eu estivesse menos incomodado…

Pense nisso e me responda aqui mesmo…

Eduardo Chaves

COMENTÁRIO 06

Elias Alves de Brito disse:

Em 19/03/2011 às 14:36

Sou professor universitário, assessor pedagógico e palestrante motivacional das editoras Ática/Scipione. Maravilhoso e conciso texto. Como seria bom que os nossos governantes, caso realmente se interessassem pela educação, pudessem fazer uma junção do modelo socrático com a metodologia vigente em nossos dias. É lógico que há uma grande distância, interesses diversos, novas tecnologias, como também o imperativo da universalização da educação, coisas que não existiam na época de Sócrates, mas presentes aqui. Seria um grande e magnífico esforço de resgate para a dinâmica pedagógica de nosso tempo. Parabéns, professor, e continue a nos brindar com seus artigos.

COMENTÁRIO 07

Eduardo Chaves disse:

Em 19/03/2011 às 22:03

Que bom que você gostou do texto, Elias. Na minha opinião, a maior contribuição que a tecnologia nos dá hoje é nos colocar mais facilmente em contato uns com os outros e nos dar acesso às informações de que precisamos para fazer o que precisamos ou simplesmente desejamos fazer. Volte sempre ao blog. E boa sorte no seu trabalho de professor, assessor e palestrante. Os três trabalhos são extremamente interessantes. Também tenho atuado nessas três áreas.

Não deixe de visitar nossa página no FaceBook: http://www.facebook.com/aticascipione.

Não há muita coisa lá ainda, mas se começarmos a visitá-la e a interagir uns com os outros lá, logo ela estará repleta de informações úteis.

Um abraço.

Eduardo Chaves

COMENTÁRIO 08

Eduardo Chaves disse:

Em 26/03/2011 às 08:09

Numa segunda ponderação ao seu comentário, Elias, fiquei aqui pensando com os meus botões se é realmente possível uma junção do modelo pedagógico de Sócrates com o modelo pedagógico existente em nossos dias…

O primeiro modelo, o socrático, me parece centrado no aluno, na aprendizagem, no processo; o segundo, o vigente, me parece centrado no professor, no ensino, no conteúdo.

Será que dá para juntar essas abordagens e produzir algo que não seja um Frankenstein?

Há quem já ache (Miguel Arroyo, em O Ofício do Mestre, por exemplo) que os nossos tão cultuados Parâmetros Curriculares Nacionais já sejam algo meio parecido com um Frankensteinzinho, ao tentar unir:

* de um lado, as disciplinas acadêmicas especializadas da educação tradicional, que parecem requerer o foco no conteúdo, no ensino, nas avaliações baseadas em provas;

* de outro lado, as competências, que têm natureza forçosamente transdisciplinar, os temas transversais (calcados nos interesses dos alunos), a aprendizagem por projetos, a contextualização dos projetos na vida do aluno…

Será que dá para termos mudança gradual do modelo atual na direção do modelo socrático que caminhe por reforma, por incrementos graduais, por junção ou agregação?

Ou será que neste caso precisamos de subversão, de reinvenção, de reconstrução radical, de transformação revolucionária, que não deixa pedra sobre pedra?

Pense nisso e volte à carga…

Um abraço.

Eduardo Chaves

COMENTÁRIO 09

Samir Thomaz disse:

Em 20/03/2011 às 11:23

Prezado professor Eduardo Chaves,

Parabéns pelo texto claro, objetivo, didático, informativo, conciso. Texto para ser lido e relido diante da panorâmica que oferece sobre o percurso da ideia de transmitir conhecimentos desde os gregos até o advento das escolas de massa e das redes sociais.

E registro aqui a honra de tê-lo como companhia ali entre os colunistas do blog da Ática e Scipione.

Um abraço.

Samir Thomaz

COMENTÁRIO 10

Eduardo Chaves disse:

Em 26/03/2011 às 08:13

Talvez mais importante do que o texto em si, Samir, é a discussão que ele gera, que a gente está podendo testemunhar aqui neste give-and-take dos comentários e réplicas…

Aqui temos o modelo socrático dialógico, interativo, focado não em um educar os outros, mas, sim, em todos nos educarmos uns aos outros, em comunhão, mediatizados pela realidade desse mundo instigante que nos brinda com uma tecnologia tão poderosa que nos permite aprender o tempo todo, de qualquer lugar…

Pense em como podemos alavancar isso como uma contribuição adicional das Editoras Ática e Scipione ao público leitor e dialogante, que quer também ser aprendente.

Um abraço.

Eduardo Chaves

COMENTÁRIO 11

Lairde Laurenti disse:

Em 20/03/2011 às 15:34

Olá. O seu texto veio ao encontro das minhas reflexões sobre o ensino de hoje. Sou professora de sala de leitura do ensino fundamental. Dou aulas do 1º ao 8º anos. Trabalhar com os pequenos é minha praia e é maravilhoso, mas trabalhar com os adolescentes é o contrário… a leitura não os encanta. Penso como você, que o paradigma tem de mudar. Tenho uma amiga que diz “Estamos carregando o morto” e concordo plenamente com ela. Beijos.

COMENTÁRIO 12

Eduardo Chaves disse:

Em 20/03/2011 às 21:43

Acho difícil, Lairde, que um adolescente que, quando pequeno, antes de aprender a ler, nunca viveu a experiência gostosa de ouvir um adulto lhe lendo uma história, ou que não descobriu o encanto que há nos livros logo que foi alfabetizado, venha, quando tem 14-15 anos, desenvolver o amor aos livros e o gosto pela leitura, assim por passe de mágica. Crianças pequenas devem ganhar livros — esses quase indestrutíveis, de pano — para descobrir cedo que livros são fontes de coisas interessantes: primeiro, de desenhos e ilustrações bonitas; depois, histórias curiosas, cuja leitora é imensamente prazerosa. Por outro lado, irritam-me os professores de literatura que passam para os alunos leituras intragáveis.

Obrigado por comentar. Volte sempre.

Eduardo Chaves

COMENTÁRIO 13

Eduardo Chaves disse:

Em 26/03/2011 às 08:24

Ontem à tarde, Lairde, uma jornalista me perguntou se havia diferença entre ler um livro impresso e ler o mesmo livro em formato digital num iPad — e, se havia, que leitura seria superior ou preferível.

Minha resposta começou por ressaltar que, no caso de alguém que não gosta de ler, o iPad, com toda a sua pirotecnia tecnológica, certamente não vai transformá-lo em leitor voraz, fazendo-o apreciar algo que não apreciava antes; e que, no caso de quem ama a leitura, os dois meios, o texto do livro impresso e o texto no iPad vão ser igualmente atraentes, porque, afinal de contas, são o mesmo texto…

Isso posto, não resta dúvida que o livro impresso e o livro digital no iPad têm suas vantagens e desvantagens, dependendo das circunstâncias… O livro impresso, especialmente se é brochura de bolso, é mais portável, porque mais leve; pode ser sublinhado e anotado com mais facilidade, dificilmente será roubado… Para ler um livro digital no iPad é necessário que se tenha um iPad, que é caro e (na sua primeira edição, pelo menos), é meio pesadinho, pode ser roubado, pode ter a bateria esgotada numa hora crítica, e (no momento, pelo menos) é difícil de sublinhar e anotar… No lado positivo, o iPad me permite carregar “trocentos” livros comigo sem peso adicional, me permitindo saltar de um livro para o outro com facilidade, mesmo quando estou no trem ou no avião… E assim vai.

Volte à carga, não suma…

Eduardo Chaves

COMENTÁRIO 14

Eduardo Chaves disse:

Em 26/03/2011 às 08:28

Coloquei a réplica anterior com o intuito de tirar uma moral, que acabei me esquecendo de tirar: que ninguém imagine que, trazendo iPads para a sala de aula, vai conseguir despertar o amor à leitura nos que não gostam de ler… Neste caso, o problema é outro…

Eduardo Chaves

COMENTÁRIO 15

Erinaldo Moura do Nascimento disse:

Em 21/03/2011 às 16:17

A tecnologia facilita a vida do cidadão. Portanto precisa urgentemente ser difundida no processo ensino aprendizagem.

COMENTÁRIO 16

Eduardo Chaves disse:

Em 21/03/2011 às 16:43

Por que você diz, Erinaldo, que a a tecnologia facilita a vida “do cidadão” — em vez de dizer “da pessoa”? Você acha que no plano pessoal, privado, a tecnologia não facilita a nossa vida?

Obrigado pela resposta. Volte sempre aqui.

Eduardo Chaves

COMENTÁRIO 17

Marli Fiorentin disse:

Em 21/03/2011 às 20:56

Olá Eduardo!

Como sempre, seus textos são muito ricos. Ainda temos muito chão pela frente, na minha opinião, ate a escola mudar e incorporar a tecnologia de fato nas práticas pedagógicas, especialmente as redes sociais. O tempo de alguém perceber que falta formação continuada aos professores e não só isso, falta valorização profissional em todos os sentidos e também boa vontade de todos em aceitar o novo. Abraço!

COMENTÁRIO 18

Eduardo Chaves disse:

Em 21/03/2011 às 23:01

Você tem certeza, Marli, de que a mudança da escola só vai acontecer pela via do professor? E que só acontecerá depois de o professor ter recebido formação adequada, ser bem pago, sentir-se valorizado e quando estiver ansioso para abraçar o novo?

Em outros segmentos da sociedade, a mudança veio à revelia dos principais agentes, sem que eles estivessem preparados ou desejosos de abraçar o novo…

Os bancários que resistiram às mudanças, ou que imaginaram que elas só viriam quando eles quisessem e nos termos que escolhessem, perderam o emprego e estão fazendo outra coisa hoje…

E se a mudança na escola acontecer pela via do aluno — pelo “protagonismo juvenil” de que falava Antonio Carlos Gomes da Costa, e que eu vou comentar no meu próximo artigo, já escrito e entregue?

Nessa nova realidade em que vivemos não temos tanto controle sobre o que acontece como gostaríamos de ter…

Eduardo Chaves

COMENTÁRIO 19

Marli Fiorentin disse:

Em 22/03/2011 às 10:27

Eduardo, sim, eu concordo que nossos alunos já estão provocando mudanças. É através de seus anseios, suas preferências e práticas fora da escola que nos guiamos para buscar a sintonia. O que eu quis dizer é que demora mais que o necessário e desejável os professores se darem conta disso ou ter coragem de inovar por algumas razões que citei e talvez por outras. Falo no sentido geral, porque felizmente muitos estão puxando a mudança. Mas eu não sou a dona da verdade. Abraço!

COMENTÁRIO 20

Mariana R. Pereira disse:

Em 22/03/2011 às 20:13

Sou professora do ensino médio e fundamental, mas também já tive oportunidade de atuar no ensino superior.

Ao fazer a leitura do texto “Tecnologia, Redes Sociais e Educação” vejo que foi uma excelente evolução e de enorme importância o aparecimento das TIC nas escolas. Tendo em conta que as crianças de hoje nasceram no mundo das novas tecnologias, muito para além do computador, pois hoje em dia a evolução tecnológica vai muito para além do computador e da Internet. Hoje, nas escolas, existe o laboratório de ciências, de forma a permitir que o lúdico faça parte das disciplinas de química, física e biologia, visando melhor aprendizado dos alunos.

Ao contrário de toda a tecnologia, vem a aversão à leitura. Alguns alunos não têm o hábito de ler e compreender o que estão lendo. Apesar de as TIC, na educação, permitirem uma compreensão profunda do mundo em que vivemos, enriquecendo o conhecimento, ainda precisamos de uma forma de fazer com que os nossos alunos, antes de irem realizar o estudo virtual, visitem o centro de multimeios, sintam o gosto pela leitura.

Neste sentido, é importante que as escolas acompanhem este crescimento e preparem os discentes nesse sentido. Afinal, somos nós mesmos que dizemos que eles já nascem sabendo mexer no computador.

Abraço.

Mariana Rodrigues Pereira
marianaararipe@yahoo.com.br
(88) 9415.1475 Araripe-CE

COMENTÁRIO 21

Eduardo Chaves disse:

Em 26/03/2011 às 08:51

Mariana,

Veja as minhas respostas ao comentário da Lairde Laurenti, aqui. Ali discuto um pouco a questão do amor à leitura e da lastimável falta dele em tantas crianças de hoje…

A televisão foi uma desgraça em termos do desenvolvimento da leitura, porque a gente assiste à televisão sem fazer esforço — na verdade, sem fazer nada a não ser manter os olhos abertos e um mínimo de atenção.

O computador representou um enorme progresso. Em regra, se você apenas senta na frente de um computador e olha para ele, ele não faz nada, mesmo que ligado e funcionando normalmente. Para ele fazer algo você tem de interagir com ele, digitar no teclado, clicar com o mouse, tocar na tela. E para fazer isso com um mínimo de propósito e inteligência, você tem de ler o que aparece na tela e responder adequadamente.

Assim, o computador pode motivar a criança pequena a querer aprender a ler e escrever. No caso das mais velhas, pode ser um incentivo até para aprender uma segunda língua, visto que isso abre novos horizontes e novas possibilidades de interação.

Desculpe ter levado tanto tempo para responder…

Um abraço.

Eduardo Chaves

COMENTÁRIO 22

Maria Araujo disse:

Em 22/03/2011 às 21:03

Boa noite a todos,

Sou professora Licenciada em Língua Portuguesa e em Pedagogia, também especialista em Gestão Educacional. Leciono Língua Portuguesa no Ensino Fundamental na rede pública. Li o texto sobre tecnologia e percebi que ela me faz compreender o norte do entretenimento que facilita o dia a dia do professor.

COMENTÁRIO 23

Eduardo Chaves disse:

Em 26/03/2011 às 08:52

Desculpe-me, Maria, mas não entendi direito o que você quer dizer quando afirma que a tecnologia a faz “compreender o norte de entretenimento que facilita o dia a dia do professor”…

Dá para elaborar e me esclarecer?

Um abraço.

Eduardo Chaves

COMENTÁRIO 24

Maria Araújo disse:

Em 22/03/2011 às 21:22

Gostei muito do texto sobre tecnologia visto que, no nosso cotidiano, facilita a estabelecermos a comunicação entre as pessoas daquilo que queremos expressar: tanto no ato da fala quanto nos textos escritos. Visto que nos facilita a curto prazo a comunicação a distância, e por esta interagimos com o mundo.

COMENTÁRIO 25

Eduardo Chaves disse:

Em 26/03/2011 às 09:30

A comunicação a distância, Maria, é certamente uma das maiores contribuições que a tecnologia já trouxe para a espécie humana. Não tenho dúvida nenhuma disso.

Um abraço.

Eduardo Chaves

COMENTÁRIO 26

Severino Ignácio disse:

Em 22/03/2011 às 22:59

Confabulo e parabenizo por seu texto, Prof. Eduardo Chaves.

O homem sempre será histórico pois desde os memoráveis tempos a espécie humana vive em constante inquietação. Os saberes serem versaram nas mais variadas formas de linguagem, logo, a dialogicidade foi e sempre será de fundamental importância para a aprendizagem que, decerto, passará a ser o eixo do desenvolvimento humano, em qualquer dimensão.

Fico feliz em saber as Redes Sociais tornou-se hélice e eixo via tecnologia o que possibilitará em curto prazo uma mola esclarecedora em pró da Educação.

Numa visão mais ampla a linguagem verbal desde os primeiros anos de nossas vidas sempre foram regidas e direcionadas pelo diálogo.

Fico feliz em participar desse momento. Será que nossa infantil e juventude para se ter um horizonte firme não estaria necessitando de uma reforma no ECA para definir seus deveres?

COMENTÁRIO 27

Eduardo Chaves disse:

Em 26/03/2011 às 09:07

Concordo 100%, Severino, que diálogo é de fundamental importância para a aprendizagem. Foi, na época de Sócrates, é hoje, e continuará sendo, cada vez mais.

Isso significa que a educação não é uma via de mão única, do professor para o aluno. É uma via de mão dupla. Talvez a metáfora da “via” aqui até se esgote, porque é difícil falar em uma via de mãos múltiplas — mas em última instância é isso que a educação é…

Lembre-se da frase lapidar de Paulo Freire citada (em parte) no vídeo com o qual a Ana Ralston, diretora de Tecnologia Educacional e Formação de Professores da Abril Educação abriu o evento:

“Ninguém educa ninguém, como tampouco ninguém se educa a si mesmo: os homens se educam em comunhão, mediatizados pelo mundo” (A Pedagogia do Oprimido, Editora Paz e Terra, Rio de Janeiro, 6ª edição, 1979, p.79).

Em Educação como Prática da Liberdade Paulo Freire bate na mesma tecla quando afirma, sobre a alfabetização de adultos: “O papel do educador [na alfabetização de adultos é] fundamentalmente dialogar com o analfabeto, sobre situações concretas, oferecendo-lhe simplesmente os instrumentos com que ele se alfabetiza. Por isso, a alfabetização não pode ser feita de cima para baixo, como uma doação ou uma imposição, mas de dentro para fora, pelo próprio analfabeto, apenas com a colaboração do educador” (Editora Paz e Terra, Rio de Janeiro, 9ª edição, 1979, p. 111).

Muita gente se diz seguidora de Paulo Freire mas passa longe disso…

Note que o educador, para Paulo Freire, é a parteira de Sócrates…

Um abraço, Severino…

Eduardo Chaves

COMENTÁRIO 28

Mariana R. Pereira disse:

Em 22/03/2011 às 23:02

Sou professora do ensino médio e fundamental, como também já tive oportunidade de atuar no ensino superior.

Ao fazer a leitura do texto “Tecnologia, Redes Sociais e Educação”, vejo que foi uma excelente evolução e de enorme importância o aparecimento das TIC nas escolas. Tendo em conta que as crianças de hoje nasceram no mundo das novas tecnologias, muito para além do computador, pois hoje em dia a evolução tecnológica vai muito para além do computador e da internet. Hoje nas escolas, existe o laboratório de ciências, de forma trabalhar o lúdico nas disciplinas de química, física e biologia, visando melhor aprendizado dos alunos.

Ao contrário de toda a tecnologia, vem a aversão à leitura. Alguns alunos não têm o hábito de ler e compreender o que está lendo. Apesar de as TIC, na educação, permitirem uma compreensão profunda do mundo em que vivemos enriquecendo o conhecimento, ainda precisamos ver uma forma de fazer com que os nossos alunos, antes de irem realizar o estudo virtual, visitar o centro de multimeios, sentir o gosto pela leitura. Neste sentido, é importante que as escolas acompanhem este crescimento e preparem os discentes nesse sentido, afinal, somos nós mesmos que dizemos que eles já nascem a saber mexer no computador.

Abraço.

COMENTÁRIO 29

Eduardo Chaves disse:

Em 26/03/2011 às 09:11

[O seu comentário, Mariana, entrou duas vezes. Copio aqui a resposta que dei ao mesmo comentário mais acima].

Mariana,

Veja as minhas respostas ao comentário da Lairde Laurenti, aqui. Ali discuto um pouco a questão do amor à leitura e da lastimável falta dele em tantas crianças de hoje…

A televisão foi uma desgraça em termos do desenvolvimento da leitura, porque a gente assiste à televisão sem fazer esforço — na verdade, sem fazer nada a não ser manter os olhos abertos e um mínimo de atenção.

O computador representou um enorme progresso. Em regra, se você apenas senta na frente de um computador e olha para ele, ele não faz nada, mesmo que ligado e funcionando normalmente. Para ele fazer algo você tem de interagir com ele, digitar no teclado, clicar com o mouse, tocar na tela. E para fazer isso com um mínimo de propósito e inteligência, você tem de ler o que aparece na tela e responder adequadamente.

Assim, o computador pode motivar a criança pequena a querer aprender a ler e escrever. No caso das mais velhas, pode ser um incentivo até para aprender uma segunda língua, visto que isso abre novos horizontes e novas possibilidades de interação.

Desculpe ter levado tanto tempo para responder…

Um abraço.

Eduardo Chaves

COMENTÁRIO 30

Nicolau H Trevisan disse:

Em 23/03/2011 às 08:47

Olá Eduardo

Discordo de você no tocante ao início de seu post, acredito que tecnologia é o conjunto de técnicas baseadas em pressupostos científicos, assim nem tudo que o homem inventa é tecnologia, ao meu ver, por exemplo: a roda, a escrita e a fala não precisaram de nenhuma ciência.

Assim também acontece com uma comunidade, posso citar inclusive as redes sociais, ninguém precisa fazer uma pesquisa científica para adentrar em uma comunidade, assim acredito que nós usamos técnicas talvez até afetivas, que nos ajudam na comunicação e interação com outros. Você já pensou se para fazer parte da comunidade “bar da esquina”, fosse preciso entender tudo de bar, será que teria a mesma quantidade de pessoas do que se apenas fosse usada para descontrair e fazer novas amizades?

COMENTÁRIO 31

Eduardo Chaves disse:

Em 23/03/2011 às 12:22

Nicolau,

Discordar é um direito… E um direito que eu respeito fundamentalmente, porque vivo discordando… Por isso, vou discordar de você.

O que se chama de ciência (a ciência empírica, experimental) é um fenômeno relativamente moderno. Vamos dizer, então, que antes da Revolução Científica dos séculos XVI-XVII não havia tecnologia?

Você, parece-me, pressente esse problema, tanto que afirma que a roda (por exemplo) não é tecnologia. Por que não seria? Se não é uma invenção difícil, por que o ser humano viveu tanto tempo sem ela? Sem a roda não teríamos o arado — ou os meios de transporte atuais. E por que o ser humano viveu tanto tempo sem escrever, e até mesmo sem falar em uma linguagem verbal, que usa palavras?

O fato de ninguém precisar fazer uma pesquisa científica para entrar em uma comunidade virtual ou rede social não significa que ninguém aprenda nada ali. A ciência não é tudo. Existiu conhecimento antes da ciência e existe conhecimento fora dela hoje. O conhecimento do senso comum, por exemplo. Ou o da filosofia, em um exemplo talvez mais difícil de recusar.

Para aprender em uma comunidade virtual não é preciso “entender tudo” de comunidades, de dinâmica de grupo, de relacionamentos virtuais. Basta ter a mente aberta e vontade de aprender.

Pretendo voltar a discutir esse assunto em um novo artigo. Aguarde.

Um abraço.

Eduardo Chaves

COMENTÁRIO 32

Otavio Freitas disse:

Em 23/03/2011 às 15:09

É deveras importante, como mostra o professor Marcos Bagno, rompermos os preconceitos linguísticos e tornarmos a educação verdadeiramente inclusiva. As alteridades culturais precisam ser respeitadas na construção de todo processo educacional. Acredito que Paulo Freire com sua Pedagogia da Autonomia deve estar mais presente e atual que nunca.

Foi com grata satisfação que fiquei sabendo desse debate, a nação tem de alavancar uma revolução e renovação de toda política voltada à educação.

Otavio Freitas, estudante de Jornalismo da UNEB.

COMENTÁRIO 33

Eduardo Chaves disse:

Em 26/03/2011 às 09:16

Também acho que as ideias centrais de Paulo Freire podem nos ajudar muito e devem estar mais presentes do que nunca.

Mas não podemos nos esquecer de Sócrates, o pai dos educadores, e de Rubem Alves, que me parece ter se tornado, entre nós, o educador maior.

Um abraço, Otávio.

Eduardo Chaves

COMENTÁRIO 34

Marli Caberlin disse:

Em 23/03/2011 às 20:28

Olá,

Sou Professora da Educação Infantil e Ensino Fundamental Séries Iniciais.

Cursei Letras na modalidade presencial e Pedagogia semi-presencial, dando abertura para que eu ficasse aficionada nos cursos on-line.

Busco aprender a aprender para ser uma melhor profissional da educação e interagir na comunidade virtual.

Marli

COMENTÁRIO 35

Eduardo Chaves disse:

Em 26/03/2011 às 09:22

Marli,

Quem sabe você ainda faz um terceiro curso, além de Letras e Pedagogia, na modalidade 100% virtual…

E espero que, além de ter ficado aficionada pelos cursos online, você também talvez fique vidrada na Educação Continuada a Distância, na discussão e no debate online, que estão no coração da aprendizagem colaborativa no plano virtual.

Um grande abraço. Não suma daqui…

Eduardo Chaves

COMENTÁRIO 36

Eliza de Oliveira disse:

Em 23/03/2011 às 23:10

Caro Eduardo,

Adorei o seu texto e como ele historia o percurso dos conceitos de educação ao longo dos tempos. Sou administradora e Educadora Corporativa. Estou prestes a partir para o Plano “B”, aquele que todos temos como sonho a realizar, onde poderei me dedicar com mais exclusividade à área educacional.

Uma dos conceitos que me chamou atenção, foi justamente o conceito de “tecnologia”, sendo inclusive ponto de discordância de alguém que já se manifestou… Mas concordo totalmente… senão como poderíamos conviver com o conceito de “tecnologias sociais”? E mais: acredito que a expansão do conceito é que nos permitirá utilizar as Redes Sociais com o fim didático, transformando-as em verdadeiras e válidas ferramentas, a uso da educação… Isso pra mim é puro exemplo de tecnologia social… que me remete ao conceito (nesse caso já expandido), utilizado pela Fundação da Instituição da qual sou colaboradora: “Tecnologia Social compreende produtos, técnicas ou metodologias reaplicáveis, desenvolvidas na interação com a comunidade e que representem efetivas soluções de transformação social” – Fundação Banco do Brasil.

A “tecnologia” está a nossa inteira disposição, precisamos identificar o problema ou a demanda a solucionar e utilizar com esse fim específico, que de especificidade nada tem, pois representará os desejos e necessidades de milhares de usuários… Tenho certeza que o resultado será maravilhoso. Imagine! Milhares…milhões de pessoas trocando saberes, ainda que sem saber…

Mas a consciência disso com certeza chegará… Com a interatividade…

Parabenizo a iniciativa e a proposta inovadora de utilizar a “tecnologia” com proposições objetivas de tornar o canal, uma ferramenta de aprendizagem coletiva, centrada no processo educacional do homem do século XXI: um ser diverso, relacional, multicultural e que necessita da interdisciplinaridade para solucionar os problemas tão complexos com os quais tem de conviver.

Felicidades…

Eliza

COMENTÁRIO 37

Eduardo Chaves disse:

Em 25/03/2011 às 11:57

Obrigado, Eliza, pelo seu comentário.

Agradeço, especialmente, por você ter trazido à baila a questão da tecnologia social e por ter nos brindado com a definição de tecnologia social da Fundação Banco do Brasil: “Tecnologia Social compreende produtos, técnicas ou metodologias reaplicáveis, desenvolvidas na interação com a comunidade e que representem efetivas soluções de transformação social”.

Essa definição expressa de forma bastante contundente que o conceito de tecnologia abrange não só “produtos” (que em geral são coisas tangíveis, hardware) mas também “técnicas e metodologias” (coisas intangíveis, software) — algo que procurei deixar claro no artigo.

Tendo trabalhado como consultor do Instituto Ayrton Senna por vários anos, o conceito de tecnologia social me é muito caro. O Instituto tem visto sua tarefa como sendo basicamente o desenvolvimento de tecnologias sociais que possam representar soluções em escala para problemas sociais — como, por exemplo, o problema da defasagem idade-série na escola, causado, em regra, por repetência.

Espero que continue a frequentar o blog e a nos deixar suas contribuições.

Um abraço.

Eduardo Chaves

COMENTÁRIO 38

Edna Dantas disse:

Em 24/03/2011 às 11:18

Caro Eduardo

Em poucas palavras você conseguiu sintetizar a história da educação e graças às TIC’s a profecia de Sócrates e de Paulo Freire se cumprirá naturalmente. Não há sistema de poder que impedirá esta revolução na educação.

Durante séculos ficamos presos nos espaços escolares, apartados do mundo real, mas hoje uma nova realidade se abre para o acesso ao conhecimento. Espero que a educação consiga entrar neste “portal” e aprender a se reinventar.

Edna Dantas, mestre em arte educação.

COMENTÁRIO 39

Eduardo Chaves disse:

Em 24/03/2011 às 14:12

Sou otimista também, Edna. Tenho confiança de que desta vez, ou a educação escolar muda, ou ela morre por irrelevância e obsolescência.

As tecnologias hoje disponíveis podem ser usadas na escola – mas seu papel mais importante é, e será cada vez mais, nos espaços e tempos extra-escolares.

Aqui no Brasil uma pessoa média passa quanto tempo na Escola Básica (EI-EF-EM, ou K-12)?

A resposta é que passa de quatro a cinco horas por dia, durante a metade do ano (i.e., durante 180 dias do ano, número que se alcança partindo dos 200 dias letivos oficiais e descontando deles os dias de faltas, de reuniões, etc.), ao longo de mais ou menos 12 anos.

Ou seja, o brasileiro médio passa na Escola Básica cerca de 10% de seu tempo (20% da metade é 10% do total) ao longo de, digamos, 12 anos (que representam um sexto de uma vida média de 72 anos).

Os 90% restantes do seu tempo (80% dos 180 dias que passa na escola, mais 100% dos 180 dias em que não vai à escola, mais os outros — digamos — 60 anos de sua vida inteira que passa fora da Escola Básica, supondo que viva pelo menos até 72 anos), o brasileiro médio vive fora da Escola Básica.

Nesse tempo extra-escolar ele, naturalmente, brinca, trabalha e aprende — lazer, trabalho e aprendizagem são três tipos de atividade fundamentais para o ser humano.

Duas considerações finais importantes:

Primeiro, cada vez mais se tem certeza de que, enquanto brincam e trabalham, as pessoas também aprendem;

Segundo, as pessoas têm, hoje, acesso — no lazer, no trabalho e nos momentos de aprendizagem dedicada — a ajuda de potentes ferramentas tecnológicas que lhes permitem ter acesso às informações que desejam e contato com pessoas que podem colaborar com sua aprendizagem.

Não é razão suficiente para ser otimista?

Quase me arrisco dizer que sou contra a Escola Básica de tempo integral… Mas seria provocação demais. Sou, isto sim, favorável a “the learning society”, a sociedade que aprende e em que se aprende…

Um abraço.

Eduardo Chaves

40) Um Trackback

Por Tecnologia, Redes Sociais e Educação | Liberal Space: Blog de Eduardo Chaves em 18/03/2011 às 07:59

Transcrito aqui em Salto, 3 de Janeiro de 2016